sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Samba Ultrapassado (reedição)

Quando este blog ainda engatinhava, publiquei o texto a seguir, que acho pertinente ao atual momento do samba, e do carnaval carioca de um modo geral.

Imagem extraída do blog "No Ventilador"


Samba ultrapassado


Não me venha com esse papo

Que me meu samba é ultrapassado,

Nem tente me convencer

Que a moça da TV

Com seu belo gingado

Tem mais ginga no quadril

E que ela tem mais rebolado

Do que as cabrochas do morro,

Com os cabelos enrolados.

O cabelo desenrola

Disso toda mulher trata

Só que a moça bonita

Que é capa de revista

Bem que tenta, mas se embola

Com os requebros das passistas.

Tão dizendo por aí,

Que minha escola já não é mais aquela

E que outra é quem manda

Em toda a passarela.

Pois que fiquem com a avenida

E com seus minutos de glória

Eu prefiro cruzar o tempo,

E seguir fazendo história.

Podem até mandar no palco,

Isso não me desatina,

Mas ninguém arreda o pé

Sem que abram as cortinas,

E que comece o show daquela

Que a todos alucina.

Umas conseguem fama,

E até muitas vitórias.

Mas nem todas permanecem

Sempre vivas na memória.

O que hoje chamam “novo”

Amanhã terá passado,

Já passei por tudo isso

E estou acostumado.

Tenho um chão que nascem estrelas

Muitas delas já enfeitam o céu,

No meu solo cobiçado

Tem raízes bem profundas,

E que tem nome sagrado

Conhecido por Mangueira,

Que não pára de dar frutos,

Esses sim, pra vida inteira!


No carnaval de 2012, a escola de samba mirim MANGUEIRA DO AMANHÃ, levará para a avenida a reedição do enredo campeão da Estação Primeira de Mangueira no ano de 1998: "Chico Buarque da Mangueira"

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Dalvíssima



Vênus, mitológica essência do amor

Vênus, astrológica estrela brilhante

Vênus, mitologia, astrologia: cintilante.

Estrela a brilhar, a conduzir

Melchior, Gaspar e Baltazar

Estrela de Belém, guiando Reis Magos ao altar.

Matutina, vespertina, entre os gregos: Afrodite!

Deusa que sustenta a afeição,

A que cuida do convívio social.

Dentre todos os planetas, o mais quente,

O lugar do universo onde tudo roda diferente,

É no leste teu poente!

Planeta Vênus, onde mais se torna menos.

Como pode a ciência explicar,

Que o ano nesse lugar, leve menos tempo que um dia para acabar?

Tão distante e radiante que num olhar penetrante

Qualquer um pode enxergar.

Lá no céu, a estrela mais brilhante,

É Vênus a nos olhar!

Para nós, simples mortais,

Que não sabemos de astrologia, nem de mitos

Ela se chama ESTRELA DALVA.

(Para muitos, DALVINHA, a nossa MAINHA! Uma eterna Mangueirense)

Homenagem à uma amiga MANGUEIRENSE que até no nome é uma estrela!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Parangolé e Samba no Pé

“A Mangueira, para mim, é como se existisse há 2 mil anos: como expressão, o seu samba possui algo de arcaico, como se nascesse da terra; não me impressiona tanto a “tradição”, mas o arcaísmo que contém a sua expressão. Na sua maneira de ser há algo que nos leva às origens das coisas.”

Hélio Oiticica


Com certeza qualquer leigo ao ouvir a palavra “parangolé”, no mínimo terá em mente aquele conjunto baiano, famoso muito mais pelo swing e pelas coreografias provocantes do que propriamente pela qualidade musical. Não por acaso, “parangolé” na verdade é um nome adequado a esse grupo musical, que tem no movimento do corpo, um dos maiores atributos. Sim, eles fazem música para dançar, para fazer com que as pessoas se expressem de forma corporal, sem preocupar-se propriamente com o que a música em si significa. É como "vestir" a música.

Foi Hélio Oiticica, um artista plástico considerado um dos mais visionários de seu tempo, quem inventou o tal do “parangolé” (não o conjunto musical, claro!). Já destacado pintor, Oiticica tinha o dom de reiventar-se, e num dado momento, percebeu que a pintura deveria saltar das telas, e “entrar” nas pessoas, posto que como arte, a pintura também tinha o objetivo de aguçar os sentidos, e não poderia ser privilégios de poucos. Em seus delírios artítiscos, Hélio Oiticica vislumbrou quadros vivos, que poderiam adquirir vários aspectos, de acordo com a interatividade de quem os vestisse! Sim, ele criou uma forma de expressão artística, que ia além das telas e das paredes. As pessoas eram as telas, e as matizes, tons, cores, texturas, materiais e formas eram emoldurados de acordo com o interlocutor. Algo meio surreal e extremamente audacioso, o fato é que nascia ali o que ficou conhecido como PARANGOLÉ, que sacudiu o mundo das artes plásticas, e reservou a esse brasileiro um lugar imortal na galeria dos grandes artistas plásticos da história da arte contemporânea. A importância de suas obras e de seu invencionismo é tamanha, que foi a partir de uma obra sua, também interativa, a qual ele batizou de “Tropicália”, que inspirou-se toda a base visual e conceitual do movimento que com certeza todos já ouviram falar, o nosso brasileiro e porque não dizer, universal, tropicalismo.

Peça da mostra "Tropicália"

E foi lá pelos anos de 1963, numa ida a um ensaio da Estação Primeira de Mangueira, que o genial artista, ao ver o movimento frenético dos corpos, embalados pelo som único da bateria, produzindo aquela explosão mítica de arte, corpo, movimento e cores, que Hélio Oiticica criou o que chamaria de “antiarte” ou “antipintura”, ou PARANGOLÉ! Então, porque não dizer que Parangolé nada mais é do que a personificação, em forma de imagem, daquilo que todos conhecem como o samba que brota dentro de cada um, ao ouvir o rufar dos tambores da Estação Primeira de Mangueira. O samba verde e rosa, transpõe a fronteira dos sentidos, e passa a ter forma visual. A paixão do artista pela escola foi tamanha, que a partir daí, dedicou-se a aprender a sambar, e a desfilar pela escola, o que fazia parte de seu processo criativo. Entender o que sentiam aquelas pessoas diante do que considerava algo único.


O parangolé não é apenas para ser visto, é para ser vestido e sentido. A arte, nesse caso, não é a obra, e sim sua comunhão com quem a veste, que lhe dá as formas de acordo com quem as usa e movimenta. O que Hélio queria era fazer com que a arte plástica pudesse ser admirada por todas as classes sociais, afinal de contas, a arte é “do” e “para” o povo, e já não cabia nas telas e nas paredes. E como tudo que é novo causa espanto, Hélio num primeiro momento foi “marginalizado”. Na abertura da mostra "Opinião 65", no MAM/RJ, protesta quando seus amigos integrantes da Mangueira são impedidos de entrar, e é expulso do museu. Realiza, então, uma manifestação coletiva em frente ao museu, na qual os Parangolés são vestidos pelos amigos sambistas. Estava ali a consagração de seu estilo, e seus parangolés, e a verde e rosa do morro, escreviam seus nomes para sempre na história da arte moderna brasileira.

Hélio Oiticica, o artista performático, pintor e escultor, que nascera no Rio de Janeiro em 1937, viveu algum tempo em New York, e voltou para a capital carioca no final dos anos 70. Em 1980 morria o homem, e nascia o mito que revolucionara as artes plásticas com seu conceito. E seus “parangolés” são hoje admirados pelo mundo inteiro, e servem de referência para novas expressões artísticas. E tudo isso nasceu num dia qualquer do ano de 1963, num ensaio da Mangueira!

Obra de Ernesto Neto, inspirado no movimento de Hélio Oiticica

Para conhecer um pouco mais da obra desse grande artista plástico, e passista da Estação Primeira de Mangueira, acesse

http://educacao.uol.com.br/biografias/helio-oiticica.jhtm


Fonte de Pesquisa: "Ensaios - Parangolé" - Antônio Cícero
"Um pintor no samba" - Sibila (site)
UOL Educação - Site


domingo, 31 de julho de 2011

Popular, com Maestria

Qualquer pessoa sem a menor noção de técnica musical como eu, ao ouvir o termo “música erudita” com certeza imagina aquelas músicas de orquestra, meio que coisa de gente intelectual. Na prática realmente é isso. A definição de música erudita é basicamente essa mesmo, é um tipo de música oposta à música popular (aquela que a gente conhece e escuta normalmente) e é pontuada por compassos, por partituras, por métrica e uma série de conceitos acadêmicos que se contrapõem à emoção. Uma música erudita é milimetricamente composta, levando-se em conta aspectos que eu nem sei explicar, e não tem preocupação necessariamente com o emocional, embora o equilíbrio sonoro dessas canções, ou “peças”, como se chamam, curiosamente nos provocam sensação de harmonia e conforto o que não deixa de ser algo ligado à emoção.

Carlos (Vianna) Cruz, pianista, maestro e compositor capixaba radicado no Rio de Janeiro, foi desses grandes estudiosos da música, com formação nos seminários da Pró-Arte (RJ) tendo estudado com Hans Fraff (piano), Esther Scliar (teoria) e Roberto Schnorrenberg (harmonia). Com seu talento, chegou rapidamente às rádios, nos áureos tempos desse meio de comunicação, e num pulo, às emissoras de televisão, como arranjador e diretor musical de vários programas, tendo passado pelas TVs Tupi, Excelsior, Record e por último na extinta Rede Manchete onde ainda assinou as trilhas das novelas "Marquesa de Santos", "Dona Beija", "Fronteira do Desconhecido", "Ilha das Buxas" e "A Escrava Anastácia". Sua obra "Intervalos" representou o Brasil no Festival Internacional da Ucrânia, em Kiev, em 1994.

Carlos Cruz foi sem dúvida alguma um ícone da música erudita, e sua enorme paixão pelo estado de origem, o Espírito Santo, o acompanhou por toda a vida, tendo sido coroada com uma de suas maiores conquistas: é dele o Hino Oficial da Cidade de Vitória – ES.

Mas a música, como toda forma de arte, em alguns momentos quebra as convenções e regras, e Carlos Cruz, o erudito, compôs uma centena de músicas populares, numa oposição quase que instintiva a tudo que o entendimento de música erudita lhe ofereceu. Talvez não tão instintivamente assim, afinal de contas, num dado momento, Carlos Cruz conheceu um instrumento chamado violão...

Foto: Orquestra Maranhense de Violões (ilustrativa)

E quando se fala em violão, é impossível não se chegar ao samba, e quando se chega ao samba, é mais impossível ainda não se chegar à “MANGUEIRA MINHA ALEGRIA”

É dele, do mais popular dos eruditas, uma das mais belas declarações de amor à Mangueira.


“Mangueira vem brilhar de novo,

Trazendo o seu carnaval pro asfalto

Mangueira é a voz do povo,

dizendo tudo que pensa bem alto!

É verde, é rosa

A escola que sabe ser famosa

E agora muita atenção que você vai ver

A minha escola que vai desfilar e acontecer...

Ô ô ô... ô ô

Mangueira minha alegria, chegou

Ô ô ô... ô ô

Mangueira, estação primeira, falou

(Fala Mangueira!)”


Fonte de Pesquisa:

Dicionário MPB (site)

Música Erudita Multiply (site)

Uol Mùsica (site)

“Carlos Cruz 70 anos – Um compositor capixaba e um violão” – Texto de Moacyr Teixeira Neto, Mestre em Música pela UFRJ

segunda-feira, 18 de julho de 2011

"Morro" de Simplicidade

“Estação Primeira”, com Carol Sant`Anna. Duvido que alguém não sinta, nesse clipe simples, nesses versos simples, a magia de que vou falar. Tudo muito simples.




Ninguém soube nem talvez nunca saberá explicar o encanto que o Morro da Mangueira exerce sobre as pessoas. Poderia ser mais uma favela (detesto a palavra “comunidade” que a hipocrisia politicamente correta nos impõe!) como tantas outras do Rio de Janeiro. Ora, quantas comunidades (favelas ou não) desse país afora vivem com dificuldade, tem gente humilde, que em meio às mazelas urbanas sobrevivem à custa de muita luta, suor e esforço? Ao contrário do que se pensa, o encantamento da Mangueira não está no fato de ser um morro cravejado de barracos, e com pessoas menos favorecidas num vai e vem frenético. Esse cenário é comum, e não é privilégio (?) somente daquele lugar . Recuso-me a acreditar que seja isso o que mais chame a atenção naquele morro, eternizado nos versos de tanta gente que para não cometer uma heresia, prefiro não citar, porque fatalmente não caberiam todos nem no texto, e muito menos na minha memória nesse exato momento.

A resposta poderia estar no samba, afinal de contas, os nomes da música que em algum momento (ou sempre) cantaram Mangueira formam capítulos e mais capítulos da história da cultura popular brasileira, e claro, a eles deve-se e muito o reconhecimento do lugar . Mas o que teria feito essas pessoas cismarem justamente com aquele morro, com aquela gente? Poderia ser qualquer outro morro, ou qualquer outro bairro do Rio de Janeiro de tantos redutos de bambas e de samba, o Rio da Lapa, de Madureira, dos morros da Cuíca, Borel, Salgueiro.

Ali mesmo, bem pertinho do Morro da Mangueira, tem o Estácio, para muitos o berço do samba carioca (eu me recuso a dizer que o berço do samba não é na Mangueira).

Mas seria tão óbvio achar que essa magia veio disso tudo, sem considerar a imensa sorte do lugar, porque, vamos combinar, se tem uma coisa que nessa questão não faltou à Mangueira foi sorte! Tanta gente boa cismar com o mesmo lugar, e mais, durante tanto tempo... Esse fascínio pela Mangueira é atemporal... Ele não morreu junto com os grandes nomes que eternizaram o lugar, aliás, a cada poeta que se vai, a mística se fortalece. Como diz um samba-enredo da escola, a “Mangueira é o tronco forte que dá frutos a vida inteira”.

Resolvi me permitir uma ousadia: tentar explicar o que é a que Mangueira tem. Talvez a explicação esteja justamente na simplicidade! Lá em Mangueira tudo é tão soberbamente simples que se torna majestoso. Na quadra da Mangueira , junto às pessoas comuns, vê-se artistas, celebridades, políticos e toda gama de gente, tudo tão natural, tudo tão deliciosamente junto e misturado. É tão bom ver as senhoras do morro devidamente alinhadas para um ensaio e ao mesmo tempo ver as beldades da TV tão deliciosamente despojadas, desmascaradas! E tudo ali, do ladinho daquelas casas simples! Quando se está na Mangueira, não existe rico, nem pobre, nem feio, nem bonito, nem famoso, nem anônimo...

Lá o que existe é um orgulho imenso de olhar toda aquela gente com o rosto marcado, com as mãos calejadas, com a vida difícil, mas com um imenso sorriso no rosto. É como se o mundo que conhecemos deixasse de existir, e ali fosse outra dimensão, dando-nos aquela certeza gostosa de que, pelo menos em Mangueira, não existe lugar para infelicidade. Pode até haver tristeza, coisa da natureza humana. Mas ali não vejo nos rostos apenas alegria estampada: vejo sorrisos felizes. E entre alegria e felicidade existe uma enorme distância, talvez a mesma distância que separa o mundo real do mundo que todos encontram, somente ali, nos botecos, vielas, ruas e becos de um lugar de gente simples, mas que bate no peito, com muito orgulho.

O lendário nos fala de Atlântida, Eldorado, Éden, Shangri-lá. Quem sabe o Morro da Mangueira não seja um desses lugares imaginários que “pra se entender tem que se achar que a vida não é só isso que se vê, é um pouco mais....”







Fotos 2 e 3 - Valéria Del Cueto (Dep. Fotográfico da Mangueira)
Ilustração: "Morro da Favela" - Tarsila do Amaral