segunda-feira, 7 de novembro de 2011

ALTO-FALANTE

"A linguagem oral é, desde muito tempo, uma das principais formas de comunicação utilizadas pelo homem. Para transmitir a linguagem oral e os sons da voz à distância foram desenvolvidos dois aparelhos: os alto-falantes e os microfones.” (“Alto-Falantes, Microfones e Telefones” – Biblioteca Virtual)


Humildade veio de berço. A vida do subúrbio carioca nunca foi fácil, desde seu nascimento lá pelos idos dos anos 40. Ser preto e pobre não bastava-lhe de açoite: resolveu o destino dar-lhe o dom de ser mulher!

O que “essa tal criatura” ¹ podia esperar desse mundo? Como a resposta é óbvia, pôs-se então a lutar! Trabalhar de dia, estudar de noite, noite e dia , dia e noite. Mas o samba pulsava nas veias; também pudera, quem nasce em Madureira e se cria em Vila Isabel justamente num tempo em que o ritmo dominante entre as minorias era esse, impossível não despertar o interesse. Só que o destino apronta das suas, e não é de todo cruel. Apresentou-lhe um certo Darcy da Mangueira, e ela, que não é boba nem nada, não desperdiçou “a grande chance”².

“-Queres ser bamba?” , perguntou-lhe o menestrel, e um “quero sim”³ deu novo rumo à sua vida.

Soube fazer direito! Formou-se advogada, e sem se fazer de rogada, pôs-se a rodar pelas rodas de samba, e fazer de sua pouca voz, aquela que se ouvia mais alto. E o grito que vinha do morro, podia ser ouvido no asfalto. Era um alto-falante, destemido e irritante aos que fingiam que não tinham ouvidos. Com “cara e coragem”⁴ foi juntando farrapos, e deles fazendo a sua bandeira.

Oh nêga abusada! Não tem outro jeito, amordacem a Anastácia!

Antes não a tivessem calado! Tirar-lhe a voz não adiantou de nada, porque seu brado veio mais forte, no abraço a tudo que era ralé. Foi além da fronteira que separa sul e norte e quando foram dar conta, já era LECI BRANDÃO, mulher de “dignidade”⁵, que com seu canto mostrou o que é de verdade, ser uma “cidadã brasileira”⁶.


“No serviço de auto-falante
Do morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira

Aí como eu queria que fosse em mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira”




Leci Brandão, cantora, compositora, sambista, MANGUEIRENSE, nasceu em 12/09/1944, no Rio de Janeiro. Primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira, destacou-se ao longo de sua carreira por sambas carregados de emoção e verdades, sendo comum em suas composições, citar em tom crítico, as ditas “minorias”, principalmente ao falar da realidade das favelas. A força de suas canções a fez ter várias delas censuradas, dentre as quais, o sucesso “Zé do Caroço” o que a levou a ficar 5 anos sem gravar. Mas já era fadada ao sucesso, e hoje contabiliza 23 discos, vários prêmios, e acima de tudo, respeito e prestígio no mundo do samba e da cultura brasileira . Em 2010 foi eleita Deputada Estadual em São Paulo, onde aliás, teve participação efetiva na popularização das escolas de samba.



Referências:

1 – Título do 5º LP da carreira (1980)

2 – Programa de Flávio Cavalcanti onde Leci Brandão participou e venceu em 1968 na categoria compositora

3 – Samba em parceria com Darcy da Mangueira (1973)

4 – Título do show do “Movimento Aberto de Arte” do qual fez parte junto com vários compositores e intérpretes, apresentado em 1977

5 – Título do 7º disco da carreira (1987)

6 – LP lançado em 1990, como qual obteve vários prêmios

Fonte de Pesquisa:

Leci Brandão – Site Oficial

Cantoras do Brasil – Site

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Será, que já raiou a liberdade, ou se foi tudo ilusão?"


Ao longo de seus 83 anos de história, a Estação Primeira de Mangueira ultrapassou as barreiras do que entende-se por escola de samba. Fundada e mantida até os dias de hoje em sua comunidade de origem (ao contrário de muitas escolas cujas sedes não ficam no coração de suas comunidades), a verde e rosa é símbolo de resistência e luta de um povo segregado e marginalizado, ou por sua origem étnica, ou social (negros pobres e retirantes nordestinos de forma geral), e depois pelo culto ao samba, que no passado era algo tido como “marginal”, proibido e coibido pela polícia. Na Mangueira, como em outras comunidades ou favelas, o poder público sempre foi ausente, e com o passar dos anos, a diferença entre morro e asfalto, entre “bairros” e “comunidades”, foi ficando cada vez mais evidente, e houve um isolamento natural. Do alto do morro, os moradores cada vez mais á mercê de toda sorte de mazela, e lá embaixo, a cidade a crescer, tendo ao fundo, apenas uma paisagem cruel de uma gente condenada à segregação e a discriminação. Nesse contexto, a escola de samba surge como a salvação. O que se produziu de cultura apenas no Morro da Mangueira, representou um verdadeiro universo paralelo dentro do contexto histórico-cultural da cidade do Rio de Janeiro, algo tão grandioso que ficou impossível aos olhos da sociedade, deixar de reconhecer que existia ali muito mais do que pobres, pretos, e toda sorte de adjetivos não tão nobres. O samba da Mangueira tornou-se uma realidade retumbante, que atraiu olhares dos mais conceituados nomes da música brasileira, e como que num passe de mágica, toda aquela explosão colorida em verde e rosa, ganhou o mundo e acabou servindo de referência do Brasil no exterior. A reboque disso a escola ganhou um novo papel dentro daquela comunidade, assumindo o que deveria ser obrigação do poder público, criando um laço tão estreito com sua comunidade, que hoje é impossível dissociar Mangueira (morro) de Mangueira (escola de samba). A Mangueira acabou se tornando singular. Por sua gente, por sua cultura, por sua importância e simbolismo, e a favela passou a ser denominada “comunidade”, e a vergonha passou a ser motivo de orgulho. A evidência está nas várias canções que retratam com poesia, a dura realidade daquela gente, e que no fundo no fundo, acaba sendo a realidade de tantas outras comunidades. Muitas canções que homenageiam a Mangueira, deixam clara a surpresa que aquele lugar representa:

“Em Mangueira a poesia,

Num sobre e desce constante,

Anda descalça ensinando,

UM MODO NOVO DA GENTE VIVER”

(“Sei lá Mangueira” – Paulinho da Viola)

Hoje, o poder público com seu projeto de retomada do poder nas comunidades, através das UPPs (necessárias) e o tal choque de ordem, tenta resgatar décadas de descaso. Tudo seria perfeito não fosse a repetição do erro. Antes, o erro foi ignorar completamente a existência daquela gente, e hoje, o erro está sendo ignorar o que o tempo deixou de marca e legado àquela comunidade. É impossível deixar de praticar uma ocupação e com ações diferenciadas, porque essa gente criou um modo próprio de vida, e o poder público não pode ignorar essa peculiaridade. O samba está para o Morro da Mangueira assim como o futebol está para o Brasil. A Estação Primeira de Mangueira está para o Morro da Mangueira, assim como a seleção brasileira de futebol está para essa imensa Nação. São fatos incontestáveis, o que aliás, é bem comum dentro de uma sociedade tão miscigenada (racial e culturalmente) como a brasileira, e tudo que venha de benefício sem a observância dessa coisa peculiar, está fadado ao fracasso. Não há como se obter sucesso nas ações no Morro da Mangueira, sem deixar de reconhecer a importância da escola de samba dentro daquela comunidade, que durante muito tempo, foi o único motivo de orgulho daquela gente. E foi dali, da dificuldade, que surgiram alternativas que hoje servem de exemplo para o mundo, como o Projeto Vila Olímpica da Mangueira, que forma cidadãos através do esporte, tudo nascido a partir da escola de samba!

A Mangueira quer urbanização, quer saúde, quer saneamento, quer educação, quer dignidade e quer, acima de tudo, que aquilo que a sustentou durante anos de esquecimento por parte da sociedade, tenha agora o devido valor e reconhecimento. E enquanto o poder público reforma quadras de escolas de samba Rio de Janeiro afora, a Mangueira, reduto de bambas e que cujo prestígio ajudou a transformar o carnaval carioca na festa popular mais famosa do planeta está lá, ainda à mercê da boa vontade.

Por tudo isso é que a Mangueira vem clamando por um NOVO PALÁCIO DO SAMBA! Porque é no samba que a Mangueira se sustenta, se dignifica e se torna forte. Um novo espaço onde possa não apenas servir de palco para seus ensaios, mas onde possa fazer cidadania, oferecendo alternativas a mais pessoas daquele lugar, oferecendo cultura, lazer, entretenimento, educação, qualificação, capacitação e uma coisa que é fundamental para qualquer cidadão: DIGNIDADE!

A Mangueira não produz torcedores de escola de samba. Ela produz MANGUEIRENSES! Porque MANGUEIRENSE é um estado de espírito!

*O título do texto é a transcrição literal dos primeiros versos do samba "Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão?" - Mangueira - Carnaval 1988

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou!"



“Quem foi que falou
Que eu não sou um moleque atrevido
Ganhei minha fama de bamba
No samba de roda
Fico feliz em saber
O que fiz pela música, faça o favor
Respeite quem pode chegar
Onde a gente chegou”

("Moleque Atrevido" - Jorge Aragão)




Já tem algum tempo que foi dada a largada para o carnaval de 2012. Com o enredo “Vou Festejar, Sou Cacique, Sou Mangueira”, a Estação Primeira de Mangueira levará para avenida um pouco da história do carnaval de rua carioca, e dessa celebração popular, que “agoniza mas não morre” ao longo de sua existência. Prestando uma justa homenagem ao bloco carnavalesco CACIQUE DE RAMOS, que lançou nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Mauro DIniz, Arlindo Cruz, Dicró, Almir Guineto, e claro, o grupo Fundo de Quintal, o enredo é uma ode à resistência! Desde os primórdios, que o samba marginalizado, ficava à mercê da elite, e com o passar dos anos, o carnaval em si também fora marginalizado, e o povo não tinha espaço dentro da folia elitista que festejava nos grandes bailes de máscaras e nas chamadas “grandes sociedades”. E foi assim que a folia popular surgiu, com o povo, à sua maneira, ganhando as ruas e formando o que hoje conhecemos como blocos. E mesmo no tempo em que o povo foi impedido de festejar, o samba resistiu debaixo da tamarineira sagrada, onde aconteciam as rodas de samba do Cacique de Ramos, cujas canções ficaram populares pela madrinha do samba Beth Carvalho. E assim, tal qual o Cacique de Ramos e seu samba de raiz e como os blocos de rua, a Mangueira resistiu ao longo de seus 83 anos de história. Sem arredar o pé daquele morro, sem afastar-se de sua gente, mesmo sofrendo grande preconceito e lutando com todas as suas forças, a velha Manga ainda resiste bravamente. E em 2012 o verde e rosa do Morro da Mangueira, vai se misturar ao vermelho, preto e branco do Cacique de Ramos. CACIQUE E MANGUEIRA NUM SÓ CORAÇÃO!”


Samba-Enredo MANGUEIRA 2012

"Vou Festejar, Sou Cacique, Sou Mangueira"

Autores: Lequinho, Igor Leal, Jr. Fionda e Paulinho Carvalho

Salve a tribo dos bambas
onde um simples verso se torna canção...

Salve o novo Palácio do Samba!

o "doce refúgio" pra inspiração

Debaixo da tamarineira

Oxóssi guerreiro me fez recordar

Um lugar... O meu berço num “novo lar”

Seguindo com os pés no chão

Raiz que se tornou religião

Da boêmia dos antigos carnavais
Não esquecerei jamais

Firma o batuque, quero sambar (Me leva)

A surdo um faz festa

Esqueça a dor da vida

Caciqueando na Avenida


Sim...

Vi o bloco passando, o nobre rezando e o povo a cantar

Sim...

Era um "nó na garganta" ver o Bafo da Onça desfilar
"Chora, chegou a hora eu não vou ligar"

Minha cultura é arte popular

Nasceu em 'Fundo de Quintal'
Sou imortal e vou dizer

Agonizar não é morrer
Mangueira fez o meu sonho acontecer

O povo não perde o prazer de cantar

Por todo universo minha voz ecoou

"Respeite quem pôde chegar
onde a gente chegou"

Vem festejar

Na palma da mão
Eu sou o samba, a voz do morro
Não dá pra conter tamanha emoção

Cacique e Mangueira num só coração

.
http://www.4shared.com/audio/3H5KAjik/03_-_Mangueira_-_Samba_Enredo_.html

E em tempos de carnaval carioca como sinônimo de espetáculo de Hollywood, onde o visual é o que parece mais importar, somente a Mangueira, do alto de sua história, pode se dar ao luxo de levar para avenida um tema tão genuinamente brasileiro, e dar voz, dessa vez definitiva, ao que a festa momesca tem de melhor: a alegria do povo! Afinal de contas, como bem diz a letra da música de Jorge Aragão , a Mangueira pode bater forte no peito e dizer: “Respeite quem pôde chegar onde a gente chegou!”

Para saber mais, acesse o SITE OFICIAL DA ESCOLA

http://www.mangueira.com.br/