Para se compreender a “magia” que envolve o Morro da Mangueira, sua importância cultural, e seu poder transformador dentro de uma sociedade cheia de problemas que todos nós conhecemos, é preciso fazer uma rápida viagem no tempo e na história do Rio de Janeiro.
No ano de 1908, o Centro do Rio, habitado principalmente por ex-escravos e seus descendentes (vindos da Bahia), sofreu uma reforma em sua estrutura arquitetônica, e não é difícil imaginar que esses moradores tiveram que procurar outros espaços para fixar moradia. Não foi um acaso do destino que levou grande parte deles para o Morro da Mangueira e adjacências. Perto dali, no morro, existia uma fábrica de chapéus, que ficou conhecida por “Chapéus Mangueira” devido a grande quantidade da árvore no local. O português Tomas Martins, tratou de povoar a região, visando evidentemente o lucro, uma vez que seria mais barato aos trabalhadores da fábrica residirem ali tão próximos, e com isso, o Morro foi ganhando mais e mais moradores. Evidentemente que os habitantes, devido suas origens, levaram para o local também seus costumes, sua cultura, e foi assim que o samba foi pra lá, fixar moradia.
O que o destino já havia escrito e ninguém sabia, é que bem perto dali, um certo Agenor, assíduo freqüentador das rodas de samba do Estácio (tido como o verdadeiro berço do samba), por problemas financeiros, teve que se mudar de Laranjeiras, seu bairro de origem, e foi instalar-se justamente naquele lugar, que já conhecia por ser freqüentador das rodas de samba que faziam no local e pelos blocos carnavalescos que lá existiam!

Pronto! O “acaso” fez um dos casamentos mais perfeito que se tem notícia na história da cultura nacional. Cartola, talentoso que era, tratou logo de atrair os grandes bambas das rodas do Estácio para o Morro, e a química perfeita formou-se: morro – favela – descendentes de escravos, e o samba parecia ter encontrado no solo mangueirense seu habitat natural.
Mas isso ainda era a ponta de um iceberg! O samba originalmente era um ritmo discriminado, marginalizado, tipificado até os dias de hoje pelo malandro carioca, e opinião minha, talvez por isso, tenha dado tanto certo no Morro da Mangueira. Sua localização geográfica, embora privilegiada (o Morro não fica no fim do mundo, pelo contrário, fica ali, encravado no coração do Rio), por ser no alto, num lugar tão evidente e ao mesmo tempo tão isolado, talvez tenha encontrado a paz que precisava para fluir naturalmente. Disso para a criação da escola de samba foi um pulo. Lá já existiam diversos ranchos e blocos, e aí começa a acontecer um fenômeno que viria a ter reflexos mais tarde, e que todos nós conhecemos. Percebeu-se que somente a união poderia dar voz mais alta ao movimento e a agregação de valores comuns (afinal de contas, todos eram marginalizados) deu força a voz que vinha do alto do Morro.
Mais uma uma vez, o destino foi generoso com a Mangueira. Cartola era um gênio da música, e a ele juntaram-se tantos outros, como Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Zé Ketti (que conheceu o samba de raiz em Mangueira), Padeirinho, e tantos e tantos outros de igual talento, e através das obras desses ícones da MPB, a Mangueira ganhava prestígio e status de celeiro.
Assim como esses, outros contemporâneos lançaram olhares sobre aquele lugar que inexplicavelmente ia na contramão do que parecia óbvio, ou seja, a segregação e o esquecimento. O fenômeno das favelas foi tomando conta do Rio, e com ele toda a sorte de preconceitos. Mas a Mangueira já tinha conquistado a todos, devido ao incontestável talento de seus bambas, que estampavam o orgulho mangueirense em suas obras. Muitos foram os grandes nomes da música que flertaram, ou se entregaram ao talento Mangueirense. Artistas hoje consagrados dos mais diversos segmentos musicais, de uma forma ou de outra, foram conhecer de perto o som que vinha daquele morro. A elite da bossa nova, a contestação da Tropicália, a busca de identidade do Rock Nacional, e movimentos mais contemporâneos como o funk, e outros derivados do samba, todos eles, de alguma forma exaltaram e ainda o fazem com a Mangueira.
O poder transformador do samba que vem do Morro da Mangueira, tem ainda papel fundamental na transformação social daquela comunidade, mas isso é assunto para uma próxima postagem.
"Mangueira é
Um canto de fé
Que leva o samba
Na poeira e no pé"
(Eraldo Faria, Geraldo das Neves, Flavinho Machado)
Fonte de pesquisa:
“Folião da Mangueira: Identidade e sociabilidade”
Carolina Marques Henriques
Universidade Federal do Rio de Janeiro
“III Simpósio Nacional ABCiber - Dias 16, 17 e 18 de Novembro de 2009 - ESPM/SP - Campus Prof. Francisco Gracioso”
“Capital Social na Favela da Mangueira”
Maria Alice Nunes Costa
"RIO DE JANEIRO: TRABALHO E SOCIEDADE - Ano 2 - Nº 3"
*artigo integrante da dissertação de mestrado da autora,intitulado “Samba e Solidariedade:capital social e parcerias coordenando as políticas sociais da Mangueira,RJ., 2002, Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.